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O dano escondido dos testes inadaptados

Todos os dias entram nas salas de aula alunos inteligentes, curiosos e capazes.



Muitos deles saem de um teste a sentir-se fracassados, envergonhados e convencidos de que não valem o suficiente.


Não foi a falta de estudo que os fez falhar. Foi o formato do teste!


Como professora que os apoia, vejo isto vezes sem conta.


Crianças com dislexia e dificuldades de aprendizagem que sabem a matéria, mostram raciocínio e interesse. Mas, quando chega o momento da avaliação, o papel que lhes é entregue transforma-se num obstáculo.


Letras pequenas, muito texto, frases longas, pouco espaço para responder e pressão de tempo. Tudo isto não avalia o que a criança aprendeu, avalia o quanto ela consegue lutar contra a sua dificuldade.


Quando os professores insistem em usar testes que não estão adaptados, o que está realmente a ser medido não é o conhecimento, é a capacidade de sobreviver a um formato injusto.

 

Avaliar não pode ser castigar

Muitos professores sabem que poderiam fazer diferente. Ainda assim, continuo a ouvir pais dizerem-me que os testes não são adaptados porque se acredita que o aluno “vai ser capaz”. Capaz de quê, exatamente? De ultrapassar uma dificuldade que não escolheu ter? De resistir à ansiedade, ao bloqueio e à frustração enquanto o tempo passa?


É impossível não questionar isto. Não vos dói o coração, ver uma criança paralisada à frente de um teste, a esforçar-se, a sofrer, a sentir-se menor? Quando sabemos que bastaria uma adaptação simples para lhe permitir mostrar o que realmente sabe.


Um teste mais limpo, com menos texto por página, letra maior, perguntas mais diretas, mais tempo ou a possibilidade de ler em voz alta, pode ser a diferença entre uma criança sair frustrada, desiludida ou sair a sentir-se capaz, confiante, motivada.


Quando adaptamos o formato, não estamos a facilitar, estamos a permitir que o aluno mostre o que realmente sabe.

 

Avaliar deve ser um ato de justiça e não de exclusão.


Um teste justo não mede quem lê mais rápido, mede quem compreendeu, pensou e aprendeu.


Sempre que um professor opta por adaptar, está a dizer a uma criança:

-Tu és válida, o teu esforço conta e a tua forma de aprender é respeitada.


Isto muda tudo, porque uma criança que se sente respeitada tenta mais, erra sem medo e cresce com confiança.

 

As consequências que ninguém vê

Quando os testes continuam a não ser adaptados, o impacto não fica no dia da avaliação, ele infiltra-se na forma como a criança se vê a si própria.


Uma criança que falha repetidamente começa a acreditar que o problema é ela. Não diz “tive dificuldades neste teste”. Diz “sou burra”, “não consigo”, “não sou boa o suficiente”.


Esta narrativa interna é devastadora, porque passa a acompanhar a criança em todas as áreas da aprendizagem.


Muitos alunos chegam às minhas sessões com medo de errar, medo de ler em voz alta e medo de tentar. Não porque não saibam, mas porque já aprenderam que errar dói.


Quando o erro é constantemente provocado por um formato injusto de avaliação, a escola deixa de ser um espaço de crescimento e passa a ser um espaço de ameaça, de medo.


A médio prazo, isto traduz-se em ansiedade, bloqueios cognitivos, desistência e rejeição da leitura e da escrita.


A longo prazo, cria jovens que duvidam das suas capacidades, evitam desafios e carregam uma autoestima académica frágil.

 

Nada disto é causado pela dislexia, é causado pela forma como o sistema responde às necessidades das crianças com dislexia.

 

Um apelo a pais e professores

Uma criança que aprende de forma diferente não precisa de menos exigência, precisa de uma avaliação justa.

 

Acredito que cada aluno merece mostrar o que sabe sem ser travado por um formato que o exclui.


Adaptar não é baixar o nível, é elevar a justiça! É permitir que a inteligência, o esforço e a criatividade de cada criança sejam vistos e reconhecidos.


Se é pai e sente que o seu filho está a ser avaliado de forma injusta, não ignore, questione. Peça adaptação!


Se é professor tenha sempre presente que um pequeno gesto seu, uma pequena mudança no formato de um teste pode evitar anos de frustração e de crenças limitadoras.


A escola pode ajudar a construir sonhos ou destruí-los.

Não é neutra!

Cada escolha nossa mostra se estamos a ajudar a crescer ou a quebrar quem aprende.



criança frustrada

Tudo o que está aqui escrito não é opinião nem apenas sensibilidade pessoal. Está mais do que provado pela investigação científica, pela prática educativa e pela existência da própria lei.


Em Portugal, o direito a medidas de suporte à aprendizagem e à inclusão, onde se incluem adaptações na avaliação, está previsto no Decreto-Lei n.º 54/2018, que estabelece que a escola deve garantir respostas educativas ajustadas às necessidades de cada aluno.


Isto não é opcional. Não depende da boa vontade do professor nem da interpretação da escola. É um direito do aluno e um dever legal da instituição.


Adaptar testes não é um favor é cumprir a lei e proteger a dignidade de quem aprende de forma diferente.

 

 
 
 

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